Rafael Ghencev é Diretor e artista 3D. Trabalhou como Character Artist na indústria de animação por mais de 10 anos, passando por grandes empresas como Vetor Zero, Techno Image e Young e teve artigos publicados na revista britânica 3d Creative. Seu Conhecimento é bem diversificado tendo estudado pintura, escultura, fotografia, Cinematografia, roteiro no Brasil e cinema na New York Film Academy. Leiam a seguir uma entrevista que o Dope fez com Ghencev para saber mais sobre seu trabalho:

Conte-me um pouco sobre você: Quem é você, o que você faz, e onde você vive?

Meu nome é Rafael Ghencev, sou de São Paulo e diria que sou um curioso; acho que essa seria a melhor definição de quem sou. Sou apaixonado por cinema, trabalhei por mais de 10 anos como artista 3D, dou aulas de 3D, em meu Atelie Online, e atualmente estou me dedicando full time, na escrita e direção de projetos audiovisuais.

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Além de trabalhar com 3D em grandes produtoras como a vetor zero atualmente vc esta desbravando outra área, como diretor. Vc sente que foi uma grande mudança? O que o motivou a mudar de ares? Poderemos ver um filme seu com efeitos especiais em breve?

Sim, sem a menor sombra de dúvida está sendo uma grande mudança, não tanto de área ou de conteúdo, pois sempre estive lendo e estudando sobre cinema, mas principalmente por estar indo para uma área que exige outras habilidades e a necessidade de provar minha capacidade a todos novamente.

Essa mudança, na verdade, foi algo natural, sempre fui apaixonado por cinema, desde pequeno; lembro-me de quando tinha por volta de 5 a 6 anos e assistia Rocky na casa dos meus tios e era uma coisa mágica para mim. Na época da escola, na faixa dos 7 anos, costumava matar o recreio para escrever historias, principalmente de suspense,  e adorava ler, lia um livro por semana, logicamente livros infantis.

Porém, na adolescencia, acabei me afastando de tudo isso, infelizmente, por falta de incentivo.

Sempre gostei de desenhar e aos 17/18 anos,  após assistir a Senhor dos Anéis e Homem Aranha, decidi que queria trabalhar com cinema, e o 3D me deu um primeiro vislumbre disso.

Em 2006, quando estudava na Melies, havia uma matéria no curso de animação que era cinema e isso reviveu o sonho de dirigir meus projetos.

Já em 2007, comecei a planejar alguns projetos que queria desenvolver, mas não tinha maturidade e nem experiência para tal, assim acabava sempre deixando para depois. Comecei, então, a fazer cursos de roteiro, direção, direção de fotografia, fotografia, etc.

A mudança de ares foi, na verdade, a necessidade de voltar ao meu sonho de criança.

Sim, com certeza, tenho alguns projetos em desenvolvimento e dois deles terão efeitos especiais.  Mas nunca escrevo uma história pensando em inserir VFX, pelo contrário, se a história pede ou necessita de VFX, aí eu insiro. Acredito que dessa forma consigo manter uma consistência na história e fazer o VFX ser útil e não só exibicionismo.

 

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Você enfrentou dificuldades? E como você as superou?

Não só enfrentei como enfrento todos os dias. Acho que todos que gostam de evoluir e tentar coisas novas passam por dificuldades. Sempre que saímos da nossa zona de conforto, todos a nossa volta nos contestam e, com isso, nós mesmos tentamos nos sabotar e dizer que é impossível, muito trabalho, etc.

Mas para mim as dificuldades, ainda que dolorosas, são o que me impulsionam e me fazem querer ir além, superá-las.

king_sketch1Venho de uma familia simples e sem recursos, nunca tive nada de mão beijada, estudei em escola pública praticamente minha vida inteira, inclusive me formei , no ensino médio, em uma. Tudo que conquistei foi trabalhando muito e poupando cada centavo para pagar por meus estudos. Para ter uma idéia, quando estudei na Melies, em 2006, estava tão duro na época que dormia de favor num quarto vazio, de um amigo; a única coisa que tinha nele era um colchão e uma cadeira que servia de guarda roupa. Não tinha dinheiro para comer e, muitas vezes, meu almoço era uma única esfirra do Habbibs com limão, que usava para fazer um suco. Nenhum dos meus amigos na Melies sabia desse sufoco que eu passava e, ainda, me achavam pão duro. hahaha… Só consegui terminar o curso porque a equipe da melies me acolheu e acreditou em mim. Agradeço de coração por tanto suporte quando era só um jovem sonhando em mudar de vida.

Tudo isso me motivava para lutar e obter êxito. Eu estudava na faixa de 14 a 16 horas por dia.

Para superar além da resiliência, toda minha vida foi paltada por muito planejamento, por exemplo, para poder mudar de ares e começar a dirigir foram mais de cinco anos planejando, poupando para estudar fora do país e tendo paciência para esperar. Não foi nada fácil, mas se planejarmos e tivermos disciplina para colocar em prática, os objetivos vêm.

Um dos nossos problemas hoje é achar que as coisas precisam acontecer do dia para a noite, e quando não acontecem, desistimos e partimos para algo mais fácil. Não falo isso apontando o dedo para os outros, pois eu mesmo não tenho paciência e tenho que constantemente respirar fundo e dizer isso para mim mesmo.

 

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Onde você encontra inspiração para o seu trabalho?

Basicamente em tudo que leio, assisto ou vejo. A inspiração, no meu caso, é muito menos prática e muito mais estudo, e quando falo estudo é algo não necessariamente ligado a área de arte, mas a tudo. Tento ler de tudo um pouco, artes no geral,  psicologia, sociologia, filosofia, religião, etc.

Tudo é um mundo novo para mim, e a inspiração se torna só uma questão de combinar informações , o que o nosso “computador interno” acaba fazendo por nós.

Em termos de arte, busco referências nas diversas formas como pintura, escultura, fotografia, etc. Raramente uso um trabalho 3D como referência, normalmente vou ao passado para me inspirar em termos visuais.

Outra coisa que me ajuda muito é escolher um trabalho que eu goste e ficar analisando até entender o porquê desse trabalho me chamar tanto a atenção. Racionalizar o trabalho de forma a assimilar as nuâncias.

Acredito que a inspiração sempre vem de fora da sua área de atuação; se você usar a própria área como inspiração, normalmente estará repetindo o que alguém já fez. Já quando você traz referências de áreas externas, temos que fazer interpretações para tornar aquilo funcional.

E isso é o que traz o nosso olhar para o trabalho.

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Quem são seus artistas favoritos, tradicionais ou digitas, explique porquê?

São tantos que fico até meio perdido. Mas poderia citar alguns nomes.

Escultura:

Bernini, pela cuidado com os detalhes e pela facilidade de retratar um movimento com maestria; poucos, na minha opinião, conseguiram congelar um movimento em seu ápice sem parecer artificial.

Rodin, pelo trabalho de simplificação da forma, sem perder o natural ou abrir mão de qualidade.

Pintura:

Rembrandt, pelo trabalho de luz, cor e mood, que é incrível.

Rockwell, por trazer o cotidiano americano de forma tão delicada, positiva e agradável. Ele te faz desejar ter vivido naquela época.

Steve Huston,  pelo trabalho incrível de cores e luz, e pela forma solta que trabalha.

Cinema:

Roger Deakins, pela precisão dos enquadramentos, o uso incrível da luz.

Wes Anderson, pela precisão, perfeccionismo e paleta de cor.

David Fincher pelo o uso inteligente do VFX.
E tanto outros que é difícil de nomear.

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Como você mantém seu portfólio atualizado? Alguma dica?
Cara, não é uma tarefa fácil, muitos dos trabalhos que faço não uso no portifólio, pois o que você põe no seu portifólio pode definir o que irá pegar no futuro. Por exemplo, se você faz muito cartoon, mas não gosta de faze-lô, não coloque no portifólio, pois se você o fizer a chance de pegar mais trabalhos assim é gigante.

Tento sempre selecionar muito bem e equilibrar com o trabalho pessoal que é tão importante quanto o trabalho profissional.

Mas, no geral, é ideal ter uma “linha”, um estilo que ilustre qual o seu objetivo, qual o mercado que deseja atingir e atacar, pois variedade demais, principalmente no mercado internacional, é visto como falta de foco ou de estilo.

Agora estou focando no meu portifólio como Diretor e, para isso, estou escrevendo 4 projetos, mais ou menos, em paralelo; um deles profissional e outros 3 pessoais.

Outra dica importante que funciona muito para mim é sempre perguntar: O que gosto de fazer? E não o que o mercado quer ver. Por mais que pareça contraditório, o mercado consegue entender quando algo é feito com carinho e dedicação e quando algo é feito somente para vender ou agradar os outros.

E a explicação disso é simples, quando amamos o que fazemos não aceitamos “roubar no jogo”, ou seja, fazemos cada etapa com carinho e atenção redobrados, fazendo nós mesmos o papel do cliente chato que quer tudo perfeito. Se fazemos sem ter a “paixão” no meio, com certeza não daremos o carinho necessário em cada etapa do processo e o resultado final, que é a consequência de um processo, sofrerá com isso.

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Quais são as suas ambições artísticas atualmente? O que podemos esperar ver de você no futuro?

Continuar estudando tudo o que puder e finalizar os curtas que estou desenvolvendo e, depois, então, ir para um longa metragem. 🙂

É nisso que estou focado e trabalhando para atingir. Muitos desafios e dificuldades ainda encontrarei pela frente. 🙂

 

 

 

Conheça mais do trabalho do Rafa em seu novo site: www.rafaelghencev.com.br e o site antigo: www.rafaelghencev.com

 

 

 

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